17/05/2018 | 17:06

Lavagem de escadarias da Igreja de São Benedito busca paz e união entre religiões em Cuiabá

No dia 23 de junho irá acontecer a Lavagem das Escadarias da Igreja de São Benedito e Nossa Senhora do Rosário, em Cuiabá. Organizado por religiões de matriz africana, o ritual pede proteção às águas, a união entre as religiões e também um resgate à cultura negra. É esperado um público de aproximadamente 1.500 pessoas.

Lavagem das Escadarias em 2017

A água utilizada na lavagem é coletada da chuva. Ela é guardada e preparada com seiva de alfazema. Uma hora antes do ato, a água é ungida pela mãe e pai de santo para que ocorra a lavagem das escadarias.

O tema desse ano é “Axé – Salve as águas”, no qual a palavra axé tem vários significados como força, vitória, triunfo e energia. O Babalorixa Paulo T’osumare, representante do Candomblé, diz que esse ato de lavar também é para que as pessoas criem um bom senso, um pouco mais de sabedoria e espiritualidade. “Se não cuidarmos desse recurso, parte da humanidade estará à mercê da destruição. Devemos cuidar do recurso hídrico que está sendo destruído, devemos cuidar da água”.

Vestidos de branco, além das religiões de matriz africana como a umbanda e o candomblé, católicos, evangélicos, ciganos, ribeirinhos, quilombolas, mulçumanos, espíritas, entre outros, se unem na caminhada no entorno da igreja. Lá serão cantados louvores de boas-vindas e que desejam sorte, paz, tranquilidade e apaziguamento.

O Babalorixa conta que o ritual também é um resgate ancestral e uma reconquista do espaço, já que a capela de São Benedito foi construída pelos negros escravizados. Representante da umbanda, Onilce de Arruda é mãe de santo e conta que esse ato já era praticado pelos seus ancestrais.

“No passado, os escravos tentavam frequentar a igreja católica, mas não tinha como. Para eles fazerem parte, eles iam limpar a igreja e dessa forma que começaram a participar. Mas quando o padre e os católicos descobriram que os negros estavam usando o catolicismo, usando o nome do santo católico como orixá, colocaram eles para fora da igreja. E aí eles ficavam limpando em volta da igreja para não sair de perto dela. Estamos ali na Igreja de São Benedito é porque ela foi construída por escravos, estamos reverenciando os nossos ancestrais”, conta ela.

O pároco da Igreja de Nossa Senhora do Rosário e de São Benedito, padre Marco Antônio, conta que existe há anos um bombardeamento de ideias de que a religião induz à violência, conduz à guerra, quando é justamente o contrário. Ele defende o ritual da lavagem e diz que é preciso congregar o espírito da paz, através da união entre todos.

Divulgação

Lavagem

Lavagem das Escadarias em 2017

“O Papa Francisco quer a união das religiões pela paz no mundo. Ele tem utilizado de todos os espaços que passam por suas mãos para propor o diálogo entre religiões, para conseguir frutos de paz e de justiça. Em uma mensagem de vídeo disse que a única certeza que existe é que todos somos filhos de Deus. A maior parte dos habitantes do planeta se declara crente e isso deveria provocar um diálogo entre as religiões. Muitos pensam diferente, sentem diferente, buscam Deus e encontram a Deus de maneiras diferentes”.

O padre Marco Antônio fala que a lavagem das escadarias é um gesto fortemente simbólico de paz e de convivência fraterna, mostrando a relação entre pessoas que acreditam em Deus, mas são fiéis de distintas religiões, e que estão unicamente em busca da paz e da superação da violência. “A lavagem acontece dias antes da tradicional festa de São Benedito, na capital. O ritual simboliza o pedido de paz, alegria e fraternidade”.

Ano passado, quando aconteceu a segunda edição da lavagem após 15 anos, o padre recebeu diversas críticas por deixar o evento acontecer na paróquia. “Existem católicos que não compreendem o gesto simbólico, já que não se trata de um culto religioso. Se você observar bem, a igreja estará com as portas fechadas. Além disso, o espaço fora da igreja é público. A própria igreja do Rosário é um patrimônio histórico tombado. O gesto acontece nas escadarias, não há nenhum problema para a fé, seja dos católicos ou dos não católicos. O bonito é que uma boa parte dos católicos e fiéis da paróquia vem prestigiar esse evento em prol da construção da paz e superação da violência”.

Divulgação

Lavagem

Lavagem das Escadarias em 2017

 

Onilce, que também é Presidente da Associação Umbandista de Mato Grosso (Assumat), conta que em Cuiabá e Várzea Grande existem mais de duas mil casas de umbanda. “As pessoas têm medo, são poucas pessoas que tem coragem de se vestir, colocar um pano na cabeça e até mesmo declarar no seu trabalho ‘eu sou umbandista, eu sou candomblecista’. Até hoje ainda existe a intolerância no trabalho”.

 

Ela e o Babalorixa Paulo contam que a violência contra essas religiões ainda acontece. São ameaças, ataques e apedrejamento aos templos. Onilce relatou que na sua casa de umbanda, localizada no Distrito da Guia, existem pessoas que passam e jogam pedras e que assim que se mudou para lá foi colocado em sua calçada um crânio humano e chamaram a polícia, como se quisessem insinuar e envolvê-los em um crime.

 

De acordo com a Secretaria de Segurança Pública de Mato Grosso (SESP), em um comparativo entre janeiro e abril de 2017 e o mesmo período em 2018, houve um aumento nos casos de injúria mediante preconceito, onde foram registradas 145 em 2017 e 172 neste ano. E nos casos de práticas, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia e religião de 31 casos observados no ano passado, neste foram registrados 35 casos.

Em 2015 havia sido criado na Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) um núcleo onde um delegado da Polícia Civil seria designado para cuidar dos casos específicos de intolerância religiosa, porém foi informado por meio de assessoria que não existe mais, devido à falta de demanda.

Onilce contou que nunca sofreu algum tipo de ataque ou intolerância por parte dos católicos. Ela tem o costume de frequentar, comemorar e cantar junto em festas da padroeira da região, Nossa Senhora da Guia. Mas o mesmo não acontece com os evangélicos, que costumam afrontar a casa de umbanda.

Arquivo Pessoal

Lavagem

Casa de Umbanda no Distrito da Guia

“Uma vez por mês acontece na nossa casa um trabalho social com médicos, dentistas, advogados, distribuição de roupas e cestas básicas. E tem evangélicos que frequentam, se consultam e pegam medicamentos dentro da nossa casa. Mas enquanto isso acontece, outros evangélicos ficam panfletando em frente e ficam falando ‘Jesus te ama’, como uma afronta. Falta um pouco de conhecimento. As pessoas dizem que ‘é coisa do diabo’, mas muitos só passam e não falam nada”.

Ela acredita que falta conhecimento pelos dois lados. “Existem pessoas do nosso lado, que usam o nosso nome para poder praticar atos e ganhar dinheiro. Estamos tentando um apoio das autoridades para que possamos combater o charlatanismo do nosso lado. A verdadeira umbanda prática a caridade, ela não visa ganho, não visa dinheiro, não se cobra nada. Quem tem condição, ajuda quem não tem. Essa é a verdadeira umbanda, nós tentamos ajudar o ser humano”.

A Lavagem das Escadarias

Local: Igreja de São Benedito e Nossa Senhora do Rosário, em Cuiabá
Data: 23/06
Concentração: 8h, ao lado da igreja
Início do Cortejo: 9h

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